Por Agnaldo Tavares Gomes
RESUMO
Este artigo tem a intenção de
mostrar, ou, revelar a dinamicidade do artista enquanto ser agente na sociedade
fazendo uso de sua arte como intervenção do espaço físico no qual ele está
inserido e nos modos de ver e pensar a vida. Procura-se relatar a distinção do
artista habilidoso e gênio por meio do seu talento e criação.
Busca num panorama histórico
sintetizar o conceito de artista atribuído ao sujeito fazedor da arte, que faz
uso das ferramentas e técnicas para expressar-se e ao mesmo tempo fazer pensar
humanamente a quem aprecia a obra de criação, tornando-o co-autor.
Também põe em voga a
significância da arte à vida e ao sujeito que dela participa, destacando que
desde que o homem entenda-se por gente ele vive a fazer e a experimentar arte.
Pois que a arte está ligada a vida de forma que e impossível pensar a vida sem
arte. Como diz o poeta maranhense Ferreira Gullar, a arte existe porque a vida
não basta.
Palavras
chave: arte,
vida, talento, gênio.
INTRODUÇÃO
Ao
desenvolver o tema escolhido a este artigo, “O Gênio de Criação na Pintura”, é
importante um ligeiro panorama sobre as expressões artísticas do homem em
contato com a vida, em especial a pintura, para melhor contextualizá-la no que
se propõe à discussão. Até mesmo porque não há como realizar um trabalho relativamente
bom sobre arte sem voltar aos seus primórdios, ao momento em que ela surge e
que, conseguintemente, marca o princípio da história do homem. Pois, as
manifestações artísticas antecedem à escrita:
Pode-se,
portanto, afirmar que as pinturas, esculturas e outras formas de arte primitivas são uma forma de
escrita. Por elas conseguimos supor o que as imagens representavam para aqueles
homens (GIRALDI; GARCIA, 2009, p. 6).
Após a abordagem do ponto inicial da arte,
sobretudo a pintura, e o entendimento de suas crenças utilitárias pelos “homens
das cavernas”, veremos que ela toma gradativamente mais racionalidade à
progressividade da linha do tempo, o que percebemos, claramente, na civilização
egípcia, na qual a arte passa a ser objeto de crença na vida após a morte e de
adoração aos deuses faraós.
Geralmente,
as pinturas e baixos-relevos apresentavam uma mesma representação do corpo, em
que o indivíduo tinha seu tronco colocado de frente e os demais membros
desenhados de
perfil. No estudo da arte, essa concepção ficou conhecida como a lei da
frontalidade. (SOUSA,
2016, p.1).
Na
produção artística da civilização grega, posterior a egípcia, “os artistas gregos buscam exprimir o que contemplam na natureza,
buscando em suas obras expressar a perfeição, a harmonia, o equilíbrio e os
ritmos ideais” (OLEQUES,
2016, p.1). Assim, a pintura grega, não diferente da dos
egípcios, também era objeto de adoração, só que ao contrário, sua direção está
na perfeição, no ideal da estética do homem.
Sequencialmente
surge a arte romana, após o declínio da civilização grega, uma arte que é
meramente a cópia dos modelos gregos, as mesmas técnicas e ferramentas de uso.
Daí para frente, a pintura segue um modelo padrão ao grego antigo até o advento
do Renascimento, período no qual os artistas aguçados pelo instinto de criação
renascem a antiga arte gregoriana pelas mãos dos exímios artistas italianos,
aos quais se destacam: Michelangelo Buonarroti, Caravaggio, Rafael, Leonardo Da
Vince, entre outros.
Durante
e após o Renascimento, podemos perceber que o conceito de arte e artista toma
contornos mais livres, e então, ao estudar os pintores considerados grandes na
História da Arte, da renascença, da modernidade e pôs-modernidade, a gente pode
perceber que há um diferencial em comum entre esses pintores. Um Michelangelo,
um Da Vince, um Picasso e um Van Gogh têm algo excêntrico em sua expressividade
particular e ao mesmo tempo comum, o que podemos chamar por gênio-talento.
1
– A PINTURA
1.1 LIGEIRO PANORAMA
A
partir do momento em que o homem é “possuído” pela ideia de pintar, seus
sentimentos se revelam do abstrato dando forma ao concreto. E esta “ideia” é
parte reveladora do íntimo do homem, ou seja, de sua essência criadora.
Era
através dos desenhos feitos nas paredes das cavernas que o homem pré-histórico
expressava seus sentimentos, de forma artística, mesmo que inconsciente do
conceito de arte. Estes desenhos documentam cenas do cotidiano como rituais,
danças, alimentação, etc.
A
ação de pintar nas paredes das cavernas tinha seus significados, suas
finalidades, como muitos pesquisadores acreditam, e não era algo vago, um fazer
apenas por fazer.
Eles
não diferiam muito as imagens do que era real. Pintavam os animais para que
pudessem dominá-los e para que, assim, sua caçada fosse certa. Pintavam e os
“atacavam” atirando laças nas pinturas; acreditavam estar “matando”, ou mesmo
“capturando” o espírito do animal, exercendo poder sobre eles (GIRALDI; GARCIA,
2009, p. 14).
Esta
relação do homem e sua criatividade evoluíram-se do rupestre a uma
expressividade mais detalhada, a assumir uma aparência, digamos assim, mais
real, no que se refere às obras compostas em períodos bem distantes àquele de
onde se começa a contar a História da Arte e, por conseguinte, a história da
humanidade.
Quando
fazemos a análise das obras produzidas em diferentes épocas e contextos históricos,
percebemos que as diferenças entre estas obras não se restringem somente a
estética, há outras diferenciações, tanto no referencial aos símbolos quanto a
técnica e ferramentas utilizadas. Nesse contexto, os artistas rupestres tinham
liberdade em suas criações, diferentemente do egípcio e dos gregos. Os egípcios
criavam seus trabalhos seguindo um modelo consagrado, a chamada “Lei da
Frontalidade”, os gregos [Grécia Antiga] também construíam sua arte para seus
deuses, ou em função deles (GIRALDI; GARCIA, 2009, p. 37).
Então, percebemos que tanto os gregos quanto os egípcios expressavam-se de acordo
a um padrão pré-estabelecido.
Convém
destacar que a busca dos gregos pela perfeição no fazer arte, a estética de
como eles computavam suas obras, são frutos de uma exaustiva busca por
aperfeiçoamento. Um trabalho tão rico de conhecimentos que atravessou séculos,
e que fora copiado pelos romanos na Antiguidade e, mais adiante, renascido no
advento do cristianismo como fundamental nas expressões religiosas:
7. A arte, que o
cristianismo encontrou nos seus inícios, era o fruto maduro do mundo clássico,
exprimia os seus cânones estéticos e, ao mesmo tempo, veiculava os seus
valores. A fé impunha aos cristãos, tanto no campo da vida e do pensamento como
no da arte, um discernimento que não permitia a aceitação automática deste
património. Assim, a arte de inspiração cristã começou em surdina, ditada pela
necessidade que os crentes tinham de elaborar sinais para exprimirem, com base
na Escritura, os mistérios da fé e simultaneamente de arranjar um « código
simbólico » para se reconhecerem e identificarem especialmente nos tempos
difíceis das perseguições. Quem não recorda certos símbolos que foram os
primeiros vestígios duma arte pictórica e plástica? O peixe, os pães, o
pastor... Evocavam o mistério, tornando-se quase insensivelmente esboços de uma
arte nova (PAULO II, 1999, p.7).
Através
das obras de diferentes períodos da História da Arte, percebemos que há dinâmico
aperfeiçoamento ao longo do tempo: os suportes, as formas, as cores, os efeitos
de luz e sombra, a perspectiva, isto tudo dando uma aparência mais próxima ao
realismo.
Até
aqui visualizamos que a atividade de pintar em que o homem vem desenvolvendo,
desde a Pré-História, é dinâmica e não quietou lá dentro das cavernas, veio
para fora, para expressar os múltiplos sentimentos de que é composta a natureza
humana.
2
– ARTE
2.1 O QUE É ARTE?
“Arte (em latim ars, artis) vem de agere,
que quer dizer agir. Arte é, pois, ação ou atividade. O artista é alguém que
age, é um agente” Rohden também acrescenta, “Artista que não seja plenamente
univérsico não é artista verdadeiro” (ROHDEN, 2007, p. 32).
2.2 O
ARTISTA
Para
entendemos o que é e quem é o artista e que significado ele e sua arte têm a
oferecer a humanidade, é necessário buscarmos entendimento no pensamento dos
grandes mestres da arte, os quais ficaram registrados nas suas obras.
Parafraseando Van Gogh: “Procure entender a fundo o que dizem os grandes
artistas, os verdadeiros artistas, em suas obras-primas, e encontrará Deus
nelas. Um o terá dito num livro, outro, num quadro.” (VAN GOGH, 2007, p. 48).
Diante
às indagações do pintor Pablo Picasso, dirigida a nós leitores, procuremos
clarear aquilo que, subjetivamente, temos formulado por artista ao longo de
nossa caminhada até aqui.
O que é que você acredita que seja
um artista? Um imbecil que só tem olhos se for pintor; ouvidos, se for músico;
ou uma lira em todos os andares do coração, se for poeta; ou, mesmo, se for
boxeur, somente músculos? Muito pelo contrário. O artista é, basicamente, um
ser político, constantemente alerta perante os dilacerantes, ardentes ou doces
acontecimentos do mundo, moldando-se inteiramente à sua imagem. [...]. É um
instrumento de guerra, ofensivo e defensivo, contra o inimigo (JONIO 1972, apud
PICASSO).
Tomando
por razão a rejeita do Sr. G quanto ao ser chamado de artista, Baudelaire
acredita que esta palavra tem significado inferior quando se emprega ao pintor
por ele estudado, pois que esta palavra se tornou definição comum o que
descaracteriza a grandiosidade do pintor, o qual ele procura descrever
fielmente em seu livro: “O Sr. G. não gosta de ser chamado de artista. Não tem
ele um pouco de razão? Ele se interessa pelo mundo inteiro; quer saber,
compreender, apreciar tudo o que se passa na superfície de nosso esferóide.”
(BAUDELAIRE, 2010, p. 24).
Entretanto
aqui, suplico-lhes, a palavra artista
num sentido muito restrito, e a expressão homem
do mundo num sentido muito amplo. Homem
do mundo, isto é, homem do mundo inteiro, homem que compreende o mundo e as
razões misteriosas e legítimas de todos os seus usos; artista, isto é, especialista, homem preso à sua palheta como o
servo à sua gleba (BAUDELAIRE, 2010, p. 22-24).
Enquanto Picasso define o ser artista
como um sujeito social, político, atento aos acontecimentos do mundo,
Baudelaire encarcera-o na palavra sujeito presos às técnicas e ferramentas de
sua arte, restringindo-o a apenas homem comum. Porém, se olharmos o artista,
por Picasso, pela mesma óptica de homem
do mundo, por Baudelaire, chegaremos há um paralelo indissociável: tanto
àquele quanto este são pintores que fazem de sua arte uma “arma” em defesa dos
valores fundamentais da sociedade.
O Papa João Paulo II, em sua “Carta aos Artistas”,
ensaia seu pensamento quanto ao ser artista. Ele denomina o artista (humano)
por artífice, enquanto o Deus Criador por Artista Supremo, sem negar a
proximidade do artífice ao Artista por meio do fazer artístico.
Qual é a diferença entre « criador » e « artífice
»? Quem cria dá o próprio ser, tira algo do nada — ex nihilo sui et subiecti,
como se costuma dizer em latim — e isto, em sentido estrito, é um modo de
proceder exclusivo do Omnipotente. O artífice, ao contrário, utiliza algo já
existente, a que dá forma e significado. [...]
Deus chamou o homem à existência, dando-lhe a
tarefa de ser artífice. Na « criação artística », mais do que em qualquer outra
actividade, o homem revela-se como « imagem de Deus », e realiza aquela tarefa,
em primeiro lugar plasmando a « matéria » estupenda da sua humanidade e depois
exercendo um domínio criativo sobre o universo que o circunda. (PAULO
II, 1999, p. 1).
Na
designação de artista por Paulo, Deus é o Grande Artista universal, o qual criou
todas as coisas, e ao homem, o ponto alto da Sua criação, deu a capacidade
criativa, tornando-o assim um artífice em continuidade a sua obra. O artista
(homem) é então um ser imagem e semelhança de Deus. “O Artista divino transmite
uma centelha da sua sabedoria transcendente ao artista humano, chamando-o a
partilhar do seu poder criador.” (PAULO II, 1999, p. 1). E esta centelha Van
Gogh deixa explicito ao afirmar que nas obras-primas dos verdadeiros artistas
Deus encontra-se nelas.
Assim
conclui o professor e filósofo Huberto Rohden, no referido ao verdadeiro
artista:
O verdadeiro artista é como um prisma,
voltado para o Infinito do Incolor e para os Finitos do Multicolor, apanhando
pela sua genialidade a Luz Incolor do Abstrato, e dispersando, pelo seu
talento, essa Luz Única nas cores múltiplas da sua concretização externa. (ROHDEN, 2007, p.
35).
3
–
TALENTO E GÊNIO
3.1 A
QUAL ARTISTA ATRIBUIR À QUALIDADE DE GÊNIO?
Se
a arte é ação, e o artista age em função da arte e, nem todo artista é
verdadeiro, certo é que há algo que diferencia este daquele artista. E essa
diferenciação é, sem duvida, o gênio de criação advinda da intuição artística,
pois, “O vidente genial visualiza, em sua poderosa theoria, o que é Real em todos os Realizados, o Infinito em todos
os Finitos, o Abstrato Universal em todos os Concretos Individuais” (ROHDEN,
2007, p. 33).
2. Nem todos são chamados a ser artistas, no sentido específico do
termo. Mas, segundo a expressão do Génesis, todo o homem recebeu a tarefa de
ser artífice da própria vida: de certa forma, deve fazer dela uma obra de arte,
uma obra-prima (PAULO II, 1999, p. 2).
Neste
fragmento da Carta redigida pelo Papa João Paulo II aos artistas, percebemos
esta diferenciação do “homem comum” àquele sublinhado pelo gênio de criação por
meio do agir artístico. E, segue ele seu raciocínio:
A distinção é evidente. De facto, uma coisa é a predisposição pela
qual o ser humano é autor dos próprios actos e responsável do seu valor moral,
e outra a predisposição pela qual é artista, isto é, sabe agir segundo as
exigências da arte, respeitando fielmente as suas regras específicas (PAULO II,
1999, p. 2).
Rohden nos traz um exemplo clássico do que é ser artista nato, ou
seja, iluminado pelo gênio artístico, este nunca
satisfeito com seu trabalho, sabe ele no seu íntimo que sua arte é um produto
inacabado.
Se Michelangelo, na hora da morte, teve o grande pesar de ter de
deixar o cenário terrestre no momento em que, como diz, começava a soletrar o
á-bê-cê da sua arte, não é isso nenhuma atitude de humildade ou modéstia
servil, mas a expressão de uma grande verdade e sincera convicção. Nenhum
artista – como nenhum escritor ou outro iluminado – pode estar satisfeito com o
pouco que fez, pois a distância entre o pouco que fez e o muito que deixou de
fazer é enorme, e essa distância é a medida da sua dolorosa insatisfação
(ROHDEN, 2007, p. 72).
Podemos
perceber que para o artista dotado do gênio da criação nunca há um ponto que se
coloca como término de sua obra, ela é sempre inacabada. Quanto mais o artista
se entrega a sua maneira de expressar seu íntimo em contato com a natureza em
derredor, mas necessita disto. A arte de que foi contemplado é sua linguagem
universal. E não podia ser diferente com o exímio escultor e pintor
Michelangelo Buonarroti, em sua entrega apostólica a arte.
Ainda
sobre Michelangelo, Van Gogh descreve:
Digo-lhe
que eu acho as figuras de Michelangelo admiráveis, embora as pernas sejam
decididamente muito cumpridas, os quadris e as coxas muito largos. Diga-lhe que
é por isso que Millet e Lhermitte são aos meus olhos os verdadeiros pintores,
porque eles não pintavam as coisas como elas são, segundo uma análise rebuscada
e seca, mas como eles, Miller, Lhermitte, Michelangelo, as sentem. (VAN GOGH, 2007,
p. 148).
Em seu entendimento, Van Gogh,
acreditava que os verdadeiros pintores são criativos, fogem as regras de
composição ditadas pela natureza, pois que o artista tem mais que o talento em
retratar em sua obra o objeto com tal, tem a genialidade em “mudar” sua ordem
natural pondo-nos seus sentimentos. O pintor tem como dever mergulhar
completamente na natureza, e utilizar toda a sua inteligência, colocar todo seu
sentimento em sua obra, para que ela se torne compreensível para os
outros. (VAN GOGH, 2007, p. 148).
O artista genial (pintor) nada é sem a
habilidade talentosa com as ferramentas e técnicas da sua arte. “Existem leis
de proporção, de luz e de sombra, de perspectiva, que devemos conhecer para poder desenhar; se não tivermos este
conhecimento, sempre estaremos numa “luta estéril” e jamais conseguiremos
“parir.” (VAN GOGH, 2007, p. 57).
Sobre a capacidade criadora Rohden
destaca os atributos necessários ao verdadeiro artista, ou seja, aquele que é
gênio-talento:
E,
por outro lado, de ser capaz de exprimir de algum modo concreto esse conteúdo
abstrato; deve dar forma ao sem-forma, nome ao inominado, colorido ao incolor;
deve saber manifestar o imanifesto, visualizar o invisível. E, nesse processo,
não se trata de nenhuma espécie de fantasia ou autodecepção; o artista não deve
tentar injetar, impingir, induzir algo em sua visão; deve eduzir algo de dentro da Realidade; deve eduzir alguma gota, maiores ou menores, do mar imenso da Realidade
visualizada em genial theoria. (ROHDEN, 2007, p. 72).
Para Baudelaire: “O
gênio não é, entretanto, senão a infância
controladamente recuperada, a
infância agora dotada, para expressar-se, de órgãos viris e do espírito
analítico que lhe permitem ordenar a soma involuntariamente acumulada de
materiais” (BAUDELAIRE, 2010, p. 28).
4
–
A INSPIRAÇÃO
Para terminar
este artigo, faço o seguinte questionamento: O que será esse “instante”
(inspiração) em que o artista (pintor) é tocado pelo desejo de expressar suas
idéias por sobre a superfície concreta do suporte a sua frente? Será algo
divino ou necessidade humana?
Como resposta trago
aqui, por Baudelaire, a descrição do momento em que o pintor Guys é “possuído”
por este desejo:
Agora, no momento em que os outros homens dormem,
esse homem está curvado sobre a mesa, lançando sobre uma folha de papel o mesmo
olhar que há pouco fixava sobre as coisas, esgrimindo com seu lápis, sua
caneta, seu pincel, respingando no teto a água do corpo, limpando a pena na
camisa, apressado, violento, ativo, como se temesse que as imagens lhe
escapassem, brigando sozinho, esbarrando em si mesmo. E as coisas renascem
sobre o papel, naturais, e mais que naturais; belas, e mais que belas; singulares
e dotadas, como a alma do autor, de uma vida em estado de exaltação
(BAUDELAIRE, 2010, p. 32).
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
A quem é
leigo na pintura e sua subjetividade, a observa com desdém, sem captar em si a
essência das pinceladas com as quais o pintor as deu formas de anjos e
monstros, paisagens e abstrações sem formas distintas. O homem quando descobre
a maneira de gravar nas paredes das cavernas as imagens percebidas em sua
realidade, sem qualquer conceito antes determinado, ele se faz pintor, cria a
arte e dá início a contagem de sua história.
Antes,
sem o conceito de pintor, o homem abstraía de sua mente imagens do cotidiano,
as quais acreditavam ser a mesma coisa que a realidade a sua volta, ao mesmo
tempo em que risca seus desenhos, pincela cores sobre estes, ele as destrói
pensando ferir com suas lanças... Acreditava assim interferir no meio em que
vivia.
Mas o
homem, animal superior no raciocínio e criatividade, com sua arte ganhou a
liberdade das cavernas e veio para fora cultuar o poder, a glória e a beleza de
sua própria raça. Com a arte se fez deus, encontrou Deus e manteve-se conectado
com Ele.
O homem
artista é, sem dúvida, co-autor da história da humanidade mais que qualquer
outro, é ele quem dá contorno ao pensamento por meio de suas técnicas e
ferramentas, que faz a idéia tornar-se matéria no terreno da inteligência
humana.
Leonardo,
Michelangelo, Ticiano, Van Gogh, Picasso, Dali e tantos outros pintores que se
consagraram e consagram-se, não foram e nem são simples artesãos do pincel, mas
homens mais que talentosos; gênios artísticos que legaram e legam suas vidas a
arte com a mesma intensidade que o fiel apóstolo do indizível Deus.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
BAUDELAIRE,
Charles. O Pintor da Vida Moderna. Belo
Horizonte – MG: Autêntica Editora Ltda, 2010.
ROHDEN,
Huberto. Filosofia da Arte. São
Paulo – SP: Martin Claret Ltda, 2007.
GIRALDI,
Fabíola Gonçalves; GARCIA, Lizandra Mara Forti. História da Arte: Da Pré-História ao Barroco. Batatais – SP:
Claretiano, 2008.
VAN
GOGH, Vincent. Cartas a Théo. Porto
Alegre – RS: L&PM Editores, 2007.
PAULO
II, João. Carta do Papa João Paulo II
aos Artistas. Vaticano – Roma, 1999.
Disponível em: <https://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/letters/1999/documents/hf_jp-ii_let_23041999_artists.html>.
Acesso em: 14 de maio de 2016.
SOUSA, Rainer Gonçalves. A Arte Egípcia. Disponível em <http://brasilescola.uol.com.br/historiag/arte-egipcia.htm>. Acesso em 03
de maio de 2016.
OLEQUES, Liane Carvalho.
A Arte Grega. Disponível em <http://www.infoescola.com/artes/arte-grega/>.
Acesso em 03 de maio de 2016.
PICASSO:
Das Questões Políticas a Subjetividade. Disponível
em: <
http://www.pucsp.br/revistaaurora/ed6_v_outubro_2009/artigos/ed6/6_2_Luis_Fernando.htm>.
Acesso em: 03 de maio de 2016.
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